“He who knows no foreign languages knows nothing of his own.” (Goethe)
Porque Fazer as Malas Não o Tornará Fluente
E porque a Imersão deve Começar em Casa
“A única forma de aprender realmente uma língua é mudar-se para o país.”
“Para de estudar e vai. Vais aprender naturalmente.”
Ouviu isto a vida toda e talvez até acredite nisso. E se me tem lido um pouco, já sabe que tenho tendência a rejeitar o que é comummente aconselhado no que toca à aprendizagem de línguas. Não por instinto do contra, mas pelo que vi e vivi: anos de experiência em primeira mão e uma vida inteira a ver as pessoas à minha volta a debaterem-se com o mesmo.
Mas porque é que não haveria de ser verdade? Afinal, quando se está no estrangeiro, estamos rodeados pela língua. As pessoas falam. Lemos os sinais. Temos de sobreviver, por isso temos de falar. Bem... pelo menos na teoria. Porque nada disto é inteiramente verdade hoje em dia, e não tenho a certeza se alguma vez foi, e esse é o primeiro problema.
As pessoas à sua volta falam, sim. Mas se não tiver absolutamente nenhum conhecimento da língua, não tem uma âncora à qual se agarrar. Nenhuma muleta que o ajude a dar o primeiro passo. E as pessoas não falam da forma para a qual os manuais o preparam. Usam coloquialismos, engolem metade das palavras, dependem de siglas, falam ao contrário (olá verlan no francês), ou referem-se a piadas internas, situações partilhadas, referências culturais às quais simplesmente não tem acesso. O que, diga-se de passagem, também acontece na sua própria língua. Pode compreender cada frase e, ainda assim, não perceber nada do que se está a passar. (Isto acontece-me com frequência suficiente para eu ter decidido que é uma condição humana universal e não uma avaria pessoal).
E mesmo que tenha uma base decente, não é como se fosse ficar de pé ou sentado ao lado de estranhos a ouvi-los durante horas. Bem, admito que fiz exatamente isso na Rússia, e não o recomendaria. Primeiro, porque me senti sozinha. Segundo, porque estava a transmitir uma energia de alguém devia provavelmente ficar de olho nela. (Música triste a tocar internamente.)
Quando está no estrangeiro, lê os sinais, sim. Ou... mais ou menos. Muitos sinais estão traduzidos para inglês. E quando não estão — por exemplo, rótulos no supermercado — espera realmente aprender muito com a lista de ingredientes do seu champô ou do seu iogurte? É improvável que se lembre dessas palavras, e elas não o ajudarão a iniciar uma conversa, a menos que queira perguntar se aquele creme contém óleo de amêndoas porque é alérgico, ou se é hidratante porque tem os pés secos. Linguisticamente impressionante, sem dúvida. Socialmente? Um pouco estranho, sejamos realistas. Especialmente se não conseguir entender a resposta e ficar ali parado, de olhos arregalados e boca entreaberta, como um veado encandeado.
Este é o cerne do problema quando se sabe muito pouco de uma língua: pode reunir toda a coragem do mundo para fazer uma pergunta e iniciar uma conversa, mas se a resposta que recebe é completamente incompreensível, o que é que está a retirar dessa interação? É prematuro, desencorajador e, muitas vezes, ligeiramente humilhante. E isto assumindo que não desiste a meio do dia por pura frustração e exaustão cognitiva, refugiando-se no reino familiar do seu telemóvel, traduzindo menus, os ingredientes de um creme hidratante para esses seus pés secos, ou simplesmente desligando-se da vida real ao enviar mensagens a amigos no seu país, ouvindo música ou pondo um podcast reconfortante que, deliberadamente, não está na sua língua-alvo. (Uau, esta frase foi terrivelmente longa).
A maioria dos “expats”, sejamos honestos, acaba por usar muito pouco a língua local no dia a dia. Mesmo os mais motivados. Na caixa do supermercado, repetem roboticamente frases sem desafio como “com cartão, por favor” (“Mit Karte, bitte” tornou-se uma piada recorrente na comunidade de aprendizagem de alemão), pedem desculpa constantemente por falarem mal e, eventualmente, mudam para o inglês, enquanto pedem desculpa por estarem a mudar para o inglês. Soa-lhe familiar?
Durante muito tempo, esta não foi de todo a minha experiência, e admito que julgava silenciosamente as pessoas que viviam no estrangeiro durante anos sem aprenderem a língua local. Afinal, o que me atraiu inicialmente para o estrangeiro (Rússia, Ucrânia e Turquia) foi precisamente o desejo de melhorar línguas que já tinha começado a aprender. Tinha-me sempre mudado com a língua como o destino em si, não como um subproduto de um emprego, de uma relação ou de uma decisão de vida. Nesse sentido, nunca me tinha realmente colocado no lugar deles. Isso mudou em Praga, onde passei vários meses e, pela primeira vez, tornei-me nessa pessoa. Não estava emocionalmente investida no checo, dependia do russo para me orientar e o inglês funcionava tão bem que nunca senti qualquer urgência real em fazer um esforço. Não havia pressão, nem necessidade, nem incentivo. E foi aí que se tornou óbvio: sem desejo ou coação, as pessoas simplesmente não se esforçam. É natural.
No que toca a pessoas que querem genuinamente aprender mas se sentem incapazes, estas enfrentam vários problemas. Estão muitas vezes demasiado ocupadas a trabalhar o dia todo, seja na sua própria língua ou em inglês, ou simplesmente não sabem por onde começar. Cada tentativa de falar tende a terminar da mesma forma: bloquear a meio da frase, mudar para o inglês por vergonha, evitar conversas por completo e isolar-se lentamente, dependendo de amigos ou parceiros, ou, se persistirem em tentar falar, receberem uma resposta em inglês de qualquer maneira. Em todos os casos, é desanimador e costuma interromper o processo de aprendizagem antes de este ter a oportunidade de se enraizar.
Isto é algo de que os estrangeiros na Holanda se queixam incessantemente: os holandeses são simplesmente demasiado proficientes em inglês para deixar que os aprendizes se debatam calmamente com o holandês. Em tais condições, como é possível progredir? Conheci uma rapariga que tinha passado, creio, seis anos na Holanda e acabou por desistir completamente. Não porque não se importasse, mas porque nunca encontrou oportunidades para falar.
E esse é o ponto. Os falantes nativos não são professores. Não estão emocionalmente investidos no seu percurso de aprendizagem. Quando falam consigo, também querem passar um bom bocado e não se sentirem presos numa conversa onde os pensamentos não conseguem ser articulados. Soa duro, mas já estive dos dois lados, e ambos são constrangedores. É constrangedor dar o seu melhor e receber uma resposta em inglês. É constrangedor deixar alguém lutar com a sua língua quando sabe que ambos poderiam comunicar mais depressa e confortavelmente em inglês (a língua que a maioria dos aprendizes já domina melhor). Dito isto, algumas culturas são mais encorajadoras do que outras. As personalidades também contam. Mas tudo isto merece o seu próprio artigo.
No entanto, o que me parece certo é isto: mudar-se para o estrangeiro na esperança de que a língua se infiltre em si por magia é um pouco como ficar parado ao lado de um ginásio e esperar ficar em forma apenas pela proximidade: tecnicamente mais perto da ação, mas sem fazer absolutamente nada.
Na sua vida real, a menos que seja um estudante ou um profissional cujas responsabilidades forcem uma interação constante, quanto tempo passa realmente a falar ou a ouvir a sua própria língua o dia todo? Provavelmente não assim tanto. Pode até passar horas em silêncio porque o seu estilo de vida o permite. No estrangeiro, o mais provável é trabalhar na sua própria língua ou em inglês, ou não trabalhar de todo e ter subitamente muito tempo vazio. É ilusório pensar que estará imerso na língua o dia todo, todos os dias. Na rua, ouve conversas em que não pode participar. Os empregados perguntam como quer o café. Os funcionários das lojas perguntam se quer um saco de oferta. Ao que responde automaticamente “Mit Karte, bitte”, porque é o que costuma dizer quando vê um caixa. E... fim de cena. Depois dessa interação alucinante, dá o dia por encerrado.
E se tiver amigos locais... bem, são amigos porque conseguem falar. O que significa que provavelmente continuarão a falar a língua comum que já partilham. Mudar é difícil depois de uma língua ter sido estabelecida. Conheci uma vez um casal luso-alemão que se conheceu em Espanha e tinha acidentalmente construído toda uma relação em espanhol, embora ambos pudessem falar inglês. Usar o inglês entre eles soava-lhes estranho.
Portanto, a imersão é, paradoxalmente, muito limitada mesmo quando se está fisicamente onde a língua é falada. Tragicamente irónico.
Então o quê — a imersão não funciona de todo? Claro que funciona. Imersão significa apenas estar rodeado pela língua e, sim, essa parte é essencial. A verdadeira questão é se esse tipo de imersão é sequer alcançável no estrangeiro quando se é um principiante, especialmente quando o telemóvel está permanentemente colado à mão, como acontece com a maioria de nós. E, na minha experiência, não, não é realmente. O simples facto de colocar o seu corpo num país não faz muito, a menos que esteja a exercitar ativamente a língua e a absorver conteúdos a par disso. Caso contrário, não está imerso — está apenas geograficamente noutro lugar.
O que estar no estrangeiro realmente faz é reforçar o que já sabe e, eventualmente, levá-lo rumo à mestria — mas apenas quando for capaz de viver realmente na língua. Isso significa trabalhar, construir relações, assumir responsabilidades e ser tratado como um igual linguístico, em vez de alguém para quem os outros precisam de abrandar ou simplificar as coisas. Nesse ponto, estar no estrangeiro torna-se quase indispensável. Se a sua língua-alvo é uma joia, é aqui que ela é polida: as arestas suavizadas, os detalhes refinados, a profundidade revelada.
A imersão deve começar em casa. No conforto do seu próprio espaço, onde pode realmente explorar tudo o que a internet tem para oferecer: centenas e centenas de horas de conteúdo, milhares e milhares de parágrafos — muito mais exposição do que alguma vez conseguirá ao pairar perto de estranhos como a figura estranha que eu fui outrora na Rússia. Esta é uma imersão que pode controlar, repetir, recuar e sobreviver.
É também o mais próximo que os adultos têm do tipo de imersão que viveram naturalmente no passado. Enquanto bebés e, depois, enquanto crianças, estávamos rodeados pela língua em cada hora que passávamos acordados. Falavam connosco constantemente em casa, depois na escola, em cada hora do dia (admitamos que não eram assim tantas horas por dia e que o cérebro ainda estava em construção, mas ainda assim). Essa densidade de exposição foi o que tornou a aquisição da linguagem possível em primeiro lugar.
Enquanto adultos, já não recebemos esse tipo de imersão de graça. Na vida real, esse nível de interação constante simplesmente não existe. Ninguém o vai levar pela mão e ensinar-lhe uma língua o dia todo, a menos que esteja a pagar um número alarmante de aulas particulares, ou que o seu parceiro (se for o caso) aceite falar consigo como se fosse uma criança muito paciente durante meses a fio, sem nunca perder a sanidade. O que significa que não podemos simplesmente improvisar e esperar que a exposição aconteça por magia. Temos de recriar a imersão deliberadamente e exercitá-la de facto. É por isso que a imersão em casa não é um plano de reserva para quando se está demasiado teso para mudar de país; é uma necessidade.
Por todas estas razões, considero que o próprio conceito de “imersão” precisa de ser repensado. Não como a linha de partida, mas como a fase final da jornada de aprendizagem (não que se pare realmente de aprender uma língua, mas percebe a ideia).
Portanto, sim — a imersão é crucial.
Só não no estrangeiro. Ainda não. Não até ter bases sólidas e fiáveis onde se apoiar. Só quando atingir um nível que lhe permita navegar na vida quase como um nativo é que a imersão no estrangeiro desbloqueia verdadeiramente o seu poder — e leva a sua língua de “bom o suficiente para sobreviver” para “tu cresceste aqui ou algo do género?”.